

[Tu és Budha]
És Budha e és uma mente comum.
Buda é apenas uma forma de dizer Desperto/Desperta.
Diz-se no Zen que o que é mais difícil a um mestre Zen é ensinar sem ensinar nada.
Se te disser uma coisa, afirmava Suzuki roshi, limitar-te-ás a isso, e limitarás a tua própria capacidade de descobrir por ti próprio.
(mas) como disse Katagari roshi, é preciso dizer alguma coisa, pois se o mestre não disser nada, os alunos vagueiam por aí, agarram-se às suas maneiras de ser habituais (…) então, a tentação é ser-se brilhante e dar respostas (…) aí, em vez de serem autoconfiantes, os discípulos voltam-se ainda mais para o mestre…
Contudo, na presença daqueles mestres que não nos dão nada a que nos agarrar sentimo-nos a despertar. O que havemos de fazer? Chama-se a isso “liberdade” ou libertação” – estamos profundamente entregues a nós próprios – e profundamente ligados a tudo.
Que havemos de fazer?!
Nada onde agarrar-se, no Zen chamamos a isso ser livre. Liberdade, ou libertação, ou tornar-se Buda, pouco importa, são apenas palavras, então estamos profundamente entregues a nós próprios e profundamente ligados a tudo, isto é no Zen ensinar sem ensinar nada.
Kodo Sawaki dizia-o de outra forma: até que não pratiquem um Zazen que não sirva para nada o vosso Zazen não servirá para nada.
Gilles Deleuze tem um texto que quero partilhar aqui, diz o seguinte:
Estamos repletos de conversas inúteis, quantidades dementes de palavras e imagens. A estupidez nunca é cega e muda. Portanto o problema não está em convencer as pessoas a exprimirem-se, mas de proporcionar pequenos hiatos de solidão e silêncio para que possam, por fim, ter algo para dizer. As forças repressivas não impedem que as pessoas se exprimam, mas, pelo contrário, forçam-nas a exprimirem-se; que alivio este, de não ter nada para dizer, porque só assim surgirá a oportunidade de encontrar aquela coisa rara, raríssima, que vale mesmo a pena dizer.
Relaxar, deixar passar, abandonar corpo-espírito.
[A realidade tal qual é]
Diz-se no Zen que a linguagem não é suficientemente rica para expressar a realidade.
Isto é, a língua, a linguagem, as palavras não são suficientes para que tenhamos uma apreensão da realidade tal que ela é, seja isso o que quer que seja.
Diz-se igualmente no Zen que o conhecimento, a sabedoria, a apreensão da realidade é direta e intuitiva.
Estamos no verão, vejamos o “caso” da melancia, claro podemos descrever com palavras uma melancia, se eu fosse um poeta, bem, nem sei o que dizer, não sou poeta, se fosse do domínio da literatura poderia dizer que é redonda, que é oval, que é verde, que é listada, que é vermelha por dentro, milhões de melancias ligeiramente diferentes, milhões de descrições.
Se eu for da química, poderei falar em fórmulas, H2O, melancia é água, melancia é esta reacção e aquela, bla… bla… bla…
Então do ponto de vista do Zen onde é que há sabedoria? Onde é que há apreensão da realidade tal qual ela é?!
Quando eu mordo a melancia, quando eu a ponho na boca e a como!
Então sei, diretamente, intuitivamente, que essa melancia é doce, amarga, ácida, água, vento, chuva, lua…
Há uma sabedoria diferente, íntima, entre eu, o meu eu ilusório, o meu corpo-espírito, e a coisa em si, tal qual é.
Simplesmente, acontece, na boca e na mente, no espírito e no corpo todo.
E está muito mais próximo da realidade quando isso é feito a partir do meu silêncio, a partir da minha escuta interior, o gesto, a atenção com que agarro, mordo, como!
Poderemos dizer que isto é a realidade tal qual ela é?
Não sei.
O que poderemos dizer é que cada um, cada uma, cada corpo-mente e a melancia, seja ela aquilo que for, estarão muito mais próximos das coisas como são, encontram-se. Deixaram de ser duas coisas distintas, descritas; eu, Manuel, e a coisa, a melancia.
Exterior e Interior desaparecem.
São apenas unidade. Já não há separação.
(Onde é que estou eu, onde é que está a melancia? Pouco importa.)
É o conhecimento direto. A realidade tal qual é!
[Tocar o Espírito]
Sesshin é um termo antigo que, hoje, habitualmente se traduz, como Retiro. O nome, originalmente, quer dizer – Tocar o Espírito; isto é, tornar-se íntimo/íntima consigo próprio/consigo mesma.
Apenas voltar o olhar para o interior, para si própria/para si mesmo.
Sesshin é substituir os desejos habituais por curiosidade, observação e esperança.
Curiosidade sobre o momento presente.
Observação de si próprio/si mesma.
Esperança no Despertar coletivo.
[Aqui e Agora]
Numa Sesshin, num retiro, ou quando se vive num mosteiro Zen, às refeições, o primeiro que fazemos é colocar de lado um pedacito de pão, ou outra comida qualquer, simbolicamente para os Gaki, os espíritos esfomeados, famintos, na tradição.
Quase sempre pensamos, nesses momentos, que os Gaki, os espíritos esfomeados, os demónios são os outros, isto é, o espírito de avidez, de consumo, do lucro, pensamos que está fora de nós, contudo trata-se do nosso próprio Gaki, e é por isso que na sala do Dharma, no Dojo, na entrada colocamos uma viga de madeira, ao entrar com o pé esquerdo primeiro, para depois juntar o pé direito e as mãos em Gasshô, deixamos para trás os Gaki.
Entramos no Dojo no momento presente, Aqui e Agora, sem nenhum espírito de proveito próprio.
Recentemente, li uma entrevista, aparentemente nada a ver com o Zen, (ou então tudo). Bill Callahan, que veio a Portugal para alguns concertos, quando lhe perguntaram se, em palco, imerso nas canções, alguma vez perde a noção de espaço ou de tempo, dá esta interessante resposta:
Sinto-me hiperconsciente, mas com o passar do tempo não me lembro disso. É tudo sobre o agora. Em cima do palco, não nos podemos apoiar em nada do passado. Nem sequer num acorde que foi tocado há cinco segundos, porque ele desapareceu e é preciso tocar outro.
“I started out in search of ordinary things
How much of a tree bends in the wind
I started telling the story without knowing the end
I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again
Something too big to be seen was passing over and over me
Well, it seemed like a routine case at first
With the death of the shadow came a lightness of verse
But the darkest of nights, in truth, still dazzles
And I work myself until I’m frazzled
I ended up in search of ordinary things
Like how can a wave possibly be?
I started running, and the concrete turned to sand
I started running, and things didn’t pan out as planned
In case things go, poorly and I not return
Remember the good things I’ve done
In case things go poorly and I not return
Remember the good things I’ve done
Oh, oh, oh, oh-oh
Done me in
(Jim Cain – Bill Callahan)
[A Natureza do Despertar]
A prática do Zen, Zazen, é sair do céu das ilusões da vida quotidiana e poder pegar a realidade tal qual ela é.
Sair do céu das ilusões é sair da nossa própria ilusão.
Sair da nossa própria ilusão é como dizia Dogen, sobre o papel do Tenzo, o cozinheiro: é ao arregaçar as mangas que o Tenzo entra na Via.
O Tenzo (o cozinheiro), ao cozinhar, cozinha a sua própria vida.
Todos cozinhamos a nossa própria vida.
Cozinhar a nossa própria vida é entender que não há separação entre Zazen e vida quotidiana.
Quando alguém chega ao Dojo nunca perguntamos quem é, nem de onde vem, (pode ter sido um mendigo, ladrão, isso não importa para nada), simplesmente fazemos Gasshô, nesse encontro, nessa possibilidade de ser.
Do mesmo modo, quando alguém se vai do Dojo, Gasshô, nada perguntamos, quem é que vai ou para onde vai, simplesmente tudo vai e vem, tal qual é.
Isto é ser coerente com o Dharma, com o que dizemos, simplesmente Aqui e Agora, isso é tudo o que temos, o momento presente, se no Dharma dizemos que o passado não existe mais, passou, se dizemos que o futuro é frágil e incerto, nem sabemos se existe, então tudo o que temos é este momento presente, esse encontro. Nunca perguntamos quem vai ou quem vem, simplesmente Gasshô, saudamos esse encontro, único.
Um ser que entra no Dojo, em busca de si mesmo, alguém que se move e dá esse primeiro passo, um ser buscando a Via.
Simplesmente, somos todos/todas Seres percorrendo a Via.
Somos todos iguais, dizia Buda, todos temos a mesma natureza original, a Natureza do Despertar.
Simples(mente)…
Manuel Noha Toei Simões